O GMFCS, sigla para Sistema de Classificação da Função Motora Grossa, é uma ferramenta utilizada para descrever como crianças e adolescentes com paralisia cerebral realizam movimentos relacionados à mobilidade.
A classificação considera principalmente habilidades como sentar, realizar transferências, ficar em pé, caminhar e utilizar recursos de mobilidade.
O sistema organiza a função motora grossa em cinco níveis. O nível I representa menor limitação funcional, enquanto o nível V representa maior necessidade de assistência, adaptações e recursos de mobilidade. (CanChild)
No entanto, o GMFCS não mede inteligência, esforço, potencial de aprendizagem ou qualidade de vida. Ele também não define todas as capacidades da criança.
O que é o GMFCS?
O GMFCS foi criado para estabelecer uma linguagem comum entre profissionais, pesquisadores e familiares de crianças com paralisia cerebral.
Sua classificação é baseada no movimento iniciado pela própria criança, com atenção especial para:
controle de tronco ao sentar;
transferências entre posições;
capacidade de caminhar;
uso de dispositivos auxiliares;
necessidade de cadeira de rodas ou mobilidade motorizada;
desempenho em casa, na escola e na comunidade.
A primeira versão do sistema foi publicada em 1997. Posteriormente, foi desenvolvida a versão expandida e revisada, conhecida como GMFCS E&R, que inclui descrições para crianças e jovens até os 18 anos. (PubMed)
O GMFCS é uma avaliação?
O GMFCS é um sistema de classificação, e não um teste de desempenho motor.
Ele identifica qual dos cinco níveis representa melhor as habilidades e limitações habituais da criança.
Portanto, a classificação deve considerar o que ela geralmente realiza em seus ambientes cotidianos, e não apenas seu melhor desempenho durante uma sessão terapêutica. (CanChild)
O sistema também não substitui avaliações padronizadas, como o GMFM, nem uma avaliação fisioterapêutica completa.

Quais são as faixas etárias do GMFCS?
As habilidades esperadas e as demandas de mobilidade mudam conforme a criança cresce.
Por isso, o GMFCS E&R apresenta descrições específicas para diferentes faixas etárias:
antes do segundo aniversário;
entre 2 e 4 anos;
entre 4 e 6 anos;
entre 6 e 12 anos;
entre 12 e 18 anos.
A mesma classificação pode apresentar descrições diferentes de acordo com a idade. Uma criança pequena, por exemplo, ainda não enfrenta as mesmas demandas de mobilidade de um adolescente na escola ou na comunidade. (CanChild)
GMFCS nível I
No nível I, a criança caminha sem limitações significativas na maior parte dos ambientes.
Geralmente consegue:
sentar-se e levantar-se sem ajuda;
caminhar dentro e fora de casa;
subir escadas sem apoio físico;
correr e saltar.
Entretanto, pode apresentar limitações na velocidade, no equilíbrio, na coordenação ou em atividades motoras mais complexas.
Entre 6 e 12 anos, por exemplo, a criança costuma caminhar em casa, na escola e na comunidade, subir e descer escadas sem utilizar o corrimão e realizar atividades como correr e pular, embora com alguma dificuldade na qualidade do movimento.
GMFCS nível II
No nível II, a criança também caminha sem dispositivo manual na maioria dos ambientes, porém apresenta limitações mais evidentes.
Ela pode ter dificuldade para:
percorrer longas distâncias;
caminhar em terrenos irregulares;
manter o equilíbrio em locais cheios;
subir escadas sem utilizar o corrimão;
correr e saltar;
acompanhar crianças da mesma idade em atividades físicas.
Em algumas situações externas ou em trajetos mais longos, pode utilizar mobilidade sobre rodas.
A principal diferença entre os níveis I e II está nas limitações de mobilidade e na necessidade de adaptações ou apoio em determinados ambientes.
GMFCS nível III
No nível III, a criança costuma caminhar utilizando um dispositivo manual de mobilidade, como andador, muletas ou bengalas.
Ela pode:
caminhar em ambientes internos com apoio;
subir escadas utilizando corrimão e assistência;
sentar-se com independência ou pequeno suporte;
realizar algumas transferências;
utilizar cadeira de rodas para distâncias maiores.
A mobilidade pode variar de acordo com o ambiente.
Dentro de casa, a criança pode caminhar com um andador. Na escola ou na comunidade, pode utilizar cadeira de rodas manual ou motorizada para economizar energia e percorrer distâncias maiores.
GMFCS nível IV
No nível IV, a mobilidade independente é mais limitada.
A criança geralmente necessita de assistência física, equipamentos adaptados ou mobilidade motorizada.
Pode:
sentar-se com apoio;
utilizar equipamentos para manter o posicionamento;
caminhar pequenas distâncias com assistência;
utilizar andador com suporte corporal;
deslocar-se por meio de cadeira de rodas;
adquirir autonomia utilizando mobilidade motorizada.
Em casa, algumas crianças conseguem caminhar por trajetos curtos com assistência. Entretanto, na escola e na comunidade, a cadeira de rodas costuma ser o principal meio de locomoção.
GMFCS nível V
No nível V, a criança apresenta limitações importantes no controle voluntário dos movimentos e na manutenção da postura contra a gravidade.
Geralmente necessita de assistência para:
manter a cabeça e o tronco alinhados;
sentar-se;
realizar transferências;
mudar de posição;
deslocar-se nos diferentes ambientes.
A mobilidade costuma acontecer em cadeira de rodas manual conduzida por outra pessoa.
Algumas crianças podem utilizar cadeira de rodas motorizada com adaptações específicas, desde que consigam controlar o equipamento de maneira segura.
Resumo dos níveis do GMFCS
NívelDescrição geral da mobilidadeICaminha sem limitações significativasIICaminha, mas apresenta limitações em alguns ambientes e atividadesIIICaminha utilizando dispositivo manual de mobilidadeIVApresenta mobilidade limitada e pode utilizar cadeira de rodas ou mobilidade motorizadaVNecessita de assistência ampla para posicionamento, transferências e mobilidade
Essa tabela apresenta apenas uma visão geral. A classificação correta precisa considerar a faixa etária e as descrições completas do sistema.
Qual é a diferença entre os níveis I e II?
Nos dois níveis, a criança consegue caminhar sem dispositivo manual.
Entretanto, no nível II, as limitações são mais perceptíveis.
A criança pode precisar do corrimão nas escadas, apresentar dificuldade em terrenos irregulares e utilizar recursos de mobilidade em trajetos longos.
No nível I, as limitações aparecem principalmente em atividades que exigem velocidade, equilíbrio e coordenação mais avançados.
Qual é a diferença entre os níveis II e III?
A principal diferença está na necessidade de um dispositivo manual para caminhar.
No nível II, a criança caminha sem andador ou muletas na maior parte dos ambientes.
No nível III, o dispositivo manual costuma ser necessário para a mobilidade cotidiana, especialmente em espaços internos.
Além disso, a cadeira de rodas pode ser utilizada com mais frequência em trajetos longos.
Qual é a diferença entre os níveis III e IV?
No nível III, a criança geralmente consegue caminhar utilizando um dispositivo manual.
No nível IV, a capacidade de caminhar é mais limitada e exige maior assistência, suporte corporal ou equipamentos adaptados.
A cadeira de rodas tende a assumir um papel mais importante na mobilidade diária.
Qual é a diferença entre os níveis IV e V?
No nível IV, a criança pode apresentar algum controle de cabeça e tronco, realizar parte das transferências e utilizar mobilidade motorizada com adaptações.
No nível V, as limitações no controle postural e nos movimentos voluntários são mais significativas.
Por isso, a criança costuma necessitar de assistência ampla para posicionamento, transferências e locomoção.
O nível do GMFCS pode mudar?
O GMFCS foi desenvolvido para apresentar relativa estabilidade ao longo do desenvolvimento.
Isso significa que, na maioria dos casos, não são esperadas mudanças frequentes de nível, especialmente após os primeiros anos de vida.
Entretanto, algumas crianças podem ser reclassificadas. Estudos indicam que a classificação pode ser menos estável entre 2 e 4 anos, fase em que o desenvolvimento motor ainda está passando por mudanças importantes. Por isso, o nível deve ser revisto periodicamente, especialmente na primeira infância. (PubMed)
Também não é correto afirmar que uma criança que muda de nível necessariamente retornará à classificação inicial durante a adolescência ou a vida adulta. A estabilidade é frequente, mas as trajetórias individuais podem variar.
Permanecer no mesmo nível significa não evoluir?
Não.
A criança pode adquirir diversas habilidades sem mudar de nível no GMFCS.
Ela pode apresentar melhora em:
equilíbrio;
controle de tronco;
transferências;
resistência;
velocidade;
uso de dispositivos;
participação nas brincadeiras;
mobilidade na escola;
independência na rotina.
O nível representa uma categoria ampla de mobilidade. Por isso, mudanças significativas podem acontecer dentro do mesmo nível funcional.
Estudos mostram, inclusive, que crianças podem continuar desenvolvendo sua mobilidade e seu desempenho funcional mesmo após a estabilização de determinadas capacidades motoras. (Wiley Online Library)
O GMFCS mede o resultado da terapia?
O GMFCS não deve ser utilizado isoladamente para medir a evolução terapêutica.
Como seus níveis são amplos e relativamente estáveis, muitas mudanças importantes não geram alteração de classificação.
Para acompanhar os resultados do tratamento, os profissionais podem utilizar:
avaliações padronizadas;
medidas de função motora;
testes de equilíbrio e controle postural;
análise da mobilidade;
metas funcionais;
observação da participação;
relatos da criança e da família.
O GMFCS ajuda a descrever a função motora geral, enquanto outras avaliações medem mudanças mais específicas.
Por que conhecer o GMFCS é importante?
Conhecer o nível da criança pode ajudar a equipe e a família a:
compreender seu padrão atual de mobilidade;
estabelecer objetivos funcionais;
escolher dispositivos auxiliares;
planejar adaptações;
antecipar necessidades futuras;
acompanhar a participação em diferentes ambientes;
melhorar a comunicação entre profissionais e familiares.
O nível também pode ajudar na interpretação de pesquisas e curvas de desenvolvimento motor.
Entretanto, as decisões terapêuticas nunca devem ser baseadas apenas na classificação.
O GMFCS deve ser usado em outras condições?
O GMFCS foi desenvolvido e validado especificamente para pessoas com paralisia cerebral.
O próprio CanChild orienta que ele não seja aplicado como classificação funcional em outras condições clínicas, pois sua confiabilidade e validade foram estabelecidas dentro do contexto da paralisia cerebral. (CanChild)
Classificar não significa limitar
O GMFCS ajuda a descrever como a criança se movimenta, mas não determina tudo aquilo que ela pode aprender, experimentar ou conquistar.
Duas crianças classificadas no mesmo nível podem apresentar habilidades, necessidades e objetivos completamente diferentes.
Por isso, o nível deve ser interpretado junto com:
avaliações funcionais;
rotina da criança;
condições de saúde;
ambiente familiar e escolar;
recursos disponíveis;
interesses da criança;
prioridades da família.
O foco não deve estar apenas em mudar a classificação, mas em ampliar a participação, a autonomia e a qualidade de vida.
Avaliação da função motora grossa na Habilistar
Na Habilistar, a avaliação considera a função motora da criança, sua rotina e as atividades mais importantes para ela e sua família.
O GMFCS pode ser utilizado junto a outros instrumentos para compreender a mobilidade, estabelecer objetivos terapêuticos e indicar recursos ou adaptações.
Entre em contato com nossa equipe para saber mais sobre as avaliações funcionais e o acompanhamento de crianças com paralisia cerebral.


