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Processo inflamatório na paralisia cerebral: o que precisa saber?

O que significa inflamação nesse contexto?

Inflamação é uma resposta biológica coordenada do sistema imune diante de infecção, hipóxia, isquemia, lesão celular ou outros estímulos.

Nessa resposta, são liberadas moléculas sinalizadoras, como:

  • interleucina-1 beta — IL-1β;
  • interleucina-6 — IL-6;
  • interleucina-8/CXCL8;
  • fator de necrose tumoral — TNF;
  • interleucina-17 — IL-17;
  • quimiocinas;
  • prostaglandinas;
  • espécies reativas de oxigênio;
  • proteínas de fase aguda, como a proteína C-reativa.

Essas substâncias não são inerentemente ruins. Elas ajudam a controlar infecções, remover células danificadas e iniciar reparação. O problema surge quando a resposta é:

  • excessiva;
  • prolongada;
  • inadequadamente regulada;
  • ou ocorre num cérebro imaturo e particularmente vulnerável.

Na PC, essa discussão começou principalmente a partir da observação de que infecção e inflamação intrauterinas estavam associadas à prematuridade, à lesão da substância branca e a maior risco de PC.

A inflamação pode participar da origem da lesão cerebral

Inflamação materna e intra-amniótica

Infecções maternas, corioamnionite e inflamação da placenta ou do líquido amniótico podem desencadear a liberação de citocinas.

Esses mediadores podem:

  • precipitar o trabalho de parto prematuro;
  • atravessar ou alterar a placenta;
  • ativar a resposta imune fetal;
  • aumentar a permeabilidade da barreira hematoencefálica;
  • tornar o cérebro fetal mais vulnerável à hipóxia e à isquemia.

A chamada síndrome de resposta inflamatória fetal, ou FIRS, é uma resposta sistêmica do feto, frequentemente associada à elevação de IL-6. Portanto, nessa fase, a inflamação pode ser inicialmente intrauterina e sistêmica, não exclusivamente cerebral.

Como uma inflamação sistêmica chega ao cérebro?

A inflamação periférica envia sinais para o cérebro por diferentes mecanismos:

  • mediadores inflamatórios presentes na circulação;
  • ativação das células endoteliais dos vasos cerebrais;
  • alteração da barreira hematoencefálica;
  • ativação de receptores imunológicos, como os toll-like receptors;
  • ativação de micróglia e astrócitos;
  • entrada ou recrutamento de células imunes para o tecido nervoso.

Em modelos experimentais, a ativação imunológica sistêmica pode produzir lesões da substância branca ou deixar o cérebro mais vulnerável a um segundo evento, como hipóxia-isquemia. Isso sustenta a ideia do “duplo golpe”: a inflamação prepara ou sensibiliza o cérebro, e uma agressão posterior produz um dano maior.

O que é neuroinflamação?

Neuroinflamação é a resposta inflamatória no sistema nervoso central.

As principais células envolvidas são:

  • micróglia, que funciona como a principal célula imune residente do cérebro;
  • astrócitos, que participam da proteção, manutenção da barreira hematoencefálica e regulação do ambiente neuronal;
  • células endoteliais;
  • oligodendrócitos e seus precursores;
  • eventualmente leucócitos vindos da circulação.

Depois de uma lesão, a micróglia é ativada para remover debris e contribuir para o reparo. Contudo, uma ativação intensa ou prolongada pode aumentar a produção de citocinas, radicais livres e substâncias excitotóxicas.

Por que a substância branca do prematuro é tão vulnerável?

No cérebro prematuro, os precursores dos oligodendrócitos — células responsáveis pela futura mielinização — são especialmente sensíveis à inflamação, ao estresse oxidativo e à excitotoxicidade.

Como consequência, podem ocorrer:

  • morte ou interrupção da maturação dos oligodendrócitos;
  • redução da mielinização;
  • alteração do desenvolvimento dos axônios;
  • perda de volume da substância branca;
  • comprometimento das conexões entre córtex, tálamo, cerebelo e vias motoras.

Esse processo está relacionado à leucomalácia periventricular, embora a PC não seja causada apenas por esse padrão de lesão.

A neuroinflamação acaba quando a lesão inicial termina?

Não necessariamente.

A lesão cerebral que define a PC é não progressiva no sentido de que o evento primário não continua destruindo o cérebro como uma doença neurodegenerativa. Porém, isso não significa que todos os processos biológicos posteriores fiquem estáticos.

A ativação glial, as alterações da barreira hematoencefálica, o estresse oxidativo, as mudanças musculoesqueléticas e a resposta imune podem persistir ou reaparecer. A revisão de Paton, Finch-Edmondson, Dale e Novak reuniu evidências de alterações inflamatórias detectadas desde o período perinatal até a vida adulta, mas ressaltou a heterogeneidade e as grandes lacunas metodológicas da literatura.

É mais prudente dizer:

Há indícios de inflamação ou desregulação imunológica persistente em alguns indivíduos com PC, mas não está comprovado que toda pessoa com PC mantenha uma neuroinflamação ativa e clinicamente relevante por toda a vida.

Existe inflamação sistêmica nas pessoas que já têm PC?

Existem estudos que encontraram diferenças em citocinas no sangue, plasma, soro, saliva, urina ou líquido cerebrospinal.

Uma revisão sistemática de Magalhães e colaboradores incluiu 14 estudos. Em dez deles, maiores concentrações de IL-1β, IL-6, TNF e IL-8/CXCL8 estiveram associadas a alterações neurológicas ou desenvolvimento anormal. Porém, os estudos eram muito diferentes quanto a:

  • idade;
  • etiologia da PC;
  • prematuridade;
  • momento da coleta;
  • material biológico;
  • presença de infecção;
  • definição e classificação da PC;
  • técnicas laboratoriais.

Assim, os resultados não permitem definir um “perfil inflamatório da PC” aplicável a todas as crianças.

Nem todos os estudos encontram inflamação aumentada

Esse é um ponto muito importante.

Um estudo sobre a resposta de citocinas encontrou desregulação, mas não apenas aumento uniforme. Crianças com PC apresentaram diferenças tanto nos níveis basais quanto na capacidade de responder a um estímulo imunológico com lipopolissacarídeo. Isso pode significar uma resposta alterada ou menos adaptável, e não simplesmente um estado permanentemente “hiperinflamado”.

Além disso, um estudo de 2025 encontrou índices sanguíneos compatíveis com menor inflamação sistêmica em crianças com PC espástica de 3 a 10 anos, em comparação com controles. Esse resultado aparentemente contrário reforça que idade, estado nutricional, gravidade, medicamentos e critérios laboratoriais modificam muito os achados.

Outro estudo recente encontrou TNF-α e alguns marcadores elevados, mas não encontrou diferenças em várias outras citocinas, como IL-1β, IL-6, IL-8 e IL-10.

Portanto:

não existe atualmente um exame de sangue validado que diagnostique “inflamação da paralisia cerebral”, determine sua gravidade ou indique diretamente um tratamento anti-inflamatório.

A inflamação é cerebral ou generalizada?

A resposta mais correta é: pode ocorrer em compartimentos diferentes, em momentos diferentes e por motivos diferentes.

A. No período causal ou perinatal

Pode haver uma inflamação:

  • materna;
  • placentária;
  • intra-amniótica;
  • fetal sistêmica;
  • cerebral.

Esses compartimentos se comunicam.

B. Após a instalação da PC

Pode haver:

  • sinais residuais ou persistentes de neuroinflamação;
  • alterações em citocinas circulantes;
  • inflamação muscular local;
  • inflamação secundária a infecções respiratórias, urinárias ou gastrointestinais;
  • inflamação relacionada a obesidade ou alterações metabólicas;
  • respostas inflamatórias decorrentes de dor, cirurgia ou lesões teciduais.

Mas não se pode presumir que tudo isso esteja presente simultaneamente.

C. A inflamação pode ser consequência, e não causa

Em uma criança com PC grave, elevações de marcadores inflamatórios podem estar relacionadas a:

  • broncoaspiração;
  • pneumonias recorrentes;
  • refluxo e irritação esofágica;
  • constipação;
  • problemas dentários;
  • lesões de pele;
  • crises epilépticas;
  • cirurgias recentes;
  • baixa mobilidade;
  • alterações nutricionais;
  • medicamentos;
  • dor musculoesquelética.

Assim, a associação entre PC e marcador inflamatório não prova que a lesão cerebral esteja produzindo diretamente essa alteração.

Esse é justamente o dilema levantado pela revisão de 2022: a inflamação persistente seria mediadora da fisiopatologia, uma comorbidade ou uma consequência das complicações associadas à PC? A resposta atual provavelmente é: pode ser qualquer uma dessas coisas, dependendo do indivíduo e do momento.

Existe uma inflamação gastrointestinal específica da PC?

O que já foi observado

Alguns estudos mostram diferenças na microbiota intestinal de crianças com PC, especialmente em grupos com epilepsia.

Um estudo de 2019 encontrou composição e funções microbianas diferentes em crianças com PC e epilepsia.

Um estudo de 2023 comparou apenas 21 crianças — oito com PC sem epilepsia e 13 com PC e epilepsia — e identificou diferenças em determinadas bactérias, vias metabólicas e metabólitos relacionados à via da quinurenina, serotonina e dopamina. Os próprios autores apresentam os achados como exploratórios.

Outros trabalhos investigam probióticos e o eixo intestino-cérebro, mas a evidência ainda é pequena e heterogênea.

Por que é difícil interpretar?

A microbiota de crianças com PC pode ser influenciada por:

  • dieta pastosa ou enteral;
  • gastrostomia;
  • constipação;
  • pouca diversidade alimentar;
  • antibióticos;
  • antiepilépticos;
  • inibidores de bomba de prótons;
  • nível de mobilidade;
  • disfagia;
  • epilepsia;
  • grau de comprometimento motor;
  • ambiente e rotina familiar.

Consequentemente, não sabemos ainda se a disbiose:

  1. contribui para alguns sintomas;
  2. é consequência das condições clínicas;
  3. ou representa uma combinação das duas coisas.

Portanto, não há evidência suficiente para afirmar que a PC seja uma doença de inflamação intestinal ou que o intestino inflamado seja responsável pelas manifestações motoras.

Também não há base atual para solicitar rotineiramente testes comerciais de microbioma, dietas anti-inflamatórias restritivas ou probióticos específicos para “tratar a inflamação da PC”.

O músculo da pessoa com PC apresenta alterações inflamatórias?

A musculatura na PC não é simplesmente um músculo normal submetido a um comando neural alterado.

Ela pode apresentar:

  • menor crescimento longitudinal;
  • fascículos mais curtos;
  • redução do volume muscular;
  • aumento do tecido conjuntivo e do colágeno;
  • matriz extracelular mais rígida;
  • alterações das células satélites;
  • alterações metabólicas e mitocondriais;
  • expressão de genes associados à fibrose e à inflamação.

Revisões da biologia muscular na PC encontraram expressão aumentada de genes relacionados à produção de colágeno e a vias pró-inflamatórias.

Entretanto, isso deve ser interpretado com cuidado. Muitas amostras musculares são obtidas durante cirurgias ortopédicas, geralmente de crianças com espasticidade e contraturas mais importantes. Portanto, esses resultados podem não representar todos os níveis de GMFCS nem todas as formas de PC.

Relação com fibrose e contratura

No tecido muscular, citocinas e mediadores como TGF-β podem estimular fibroblastos e deposição de matriz extracelular.

Em teoria, a combinação de:

  • comando motor alterado;
  • crescimento ósseo mais rápido que o crescimento muscular;
  • baixa variedade de movimento;
  • imobilização;
  • sobrecarga mecânica;
  • isquemia local;
  • inflamação e fibrose;

pode contribuir para o desenvolvimento de rigidez passiva e contraturas.

Mas ainda não é possível quantificar quanto da contratura é causado especificamente pela inflamação. Espasticidade, arquitetura muscular, crescimento, alinhamento articular e padrões de uso continuam sendo componentes fundamentais.

O que essa inflamação pode causar clinicamente?

As consequências dependem do período em que a inflamação ocorre.

Durante o desenvolvimento cerebral

A inflamação pode contribuir para:

  • lesão da substância branca;
  • prejuízo da maturação dos oligodendrócitos;
  • redução da mielinização;
  • alterações de conectividade;
  • dano neuronal ou axonal;
  • lesões de gânglios da base, córtex ou cerebelo, conforme a etiologia;
  • maior vulnerabilidade à hipóxia-isquemia;
  • alterações motoras, cognitivas, sensoriais e comportamentais posteriores.

A relação mais bem estabelecida é entre inflamação perinatal, prematuridade, lesão da substância branca e risco de desfecho neurológico adverso.

Após a PC estar estabelecida

A literatura levanta a hipótese de que inflamação persistente possa contribuir para:

  • menor eficiência da plasticidade e da reparação;
  • fadiga;
  • alterações do metabolismo energético;
  • sarcopenia ou perda de massa muscular;
  • fibrose muscular;
  • dor;
  • envelhecimento musculoesquelético precoce;
  • pior saúde cardiometabólica;
  • maior impacto de comorbidades.

Porém, essas relações ainda são muito mais associativas do que causais. A revisão sobre inflamação persistente propõe possíveis ligações com perda funcional ao longo da vida, mas reconhece que faltam estudos longitudinais capazes de mostrar que determinado marcador inflamatório prediz piora funcional futura.

Relação com a gravidade motora

Os resultados também não são consistentes.

Alguns trabalhos encontram associação entre determinados mediadores e pior desenvolvimento. Outros não encontram correlação entre TNF circulante e nível de GMFCS, por exemplo.

Não é adequado afirmar:

“Quanto maior o GMFCS, maior necessariamente a inflamação.”

É possível que pessoas mais comprometidas tenham mais fatores secundários capazes de modificar a inflamação — imobilidade, alimentação enteral, infecções, epilepsia e medicamentos —, mas isso não estabelece uma relação linear entre GMFCS e neuroinflamação.

A inflamação explica espasticidade?

Não diretamente.

A espasticidade resulta principalmente de alterações do sistema sensório-motor central e da regulação do reflexo de estiramento, com perda ou modificação do controle descendente.

A inflamação perinatal pode participar da lesão das vias motoras que posteriormente produz espasticidade. Porém, depois que a PC está estabelecida, não há evidência de que a espasticidade seja simplesmente causada por uma citocina elevada no sangue.

A neuroinflamação e a inflamação muscular podem:

  • modificar excitabilidade neural;
  • interferir na plasticidade;
  • favorecer dor;
  • contribuir para remodelamento e rigidez tecidual.

Mas não substituem os mecanismos neurofisiológicos clássicos da espasticidade.

O que isso muda para a clínica de reabilitação?

10.1. Muda o conceito de “lesão estática”

A lesão cerebral inicial não progride, mas o organismo continua se desenvolvendo e se adaptando.

O cérebro, o músculo, o osso, o tecido conjuntivo e o sistema imune estão em interação contínua. Isso ajuda a entender por que a apresentação clínica pode mudar mesmo sem uma nova lesão cerebral.

10.2. Reforça a importância de controlar comorbidades

Antes de atribuir fadiga, irritabilidade, perda de desempenho ou aumento do tônus à “inflamação da PC”, a equipe deve investigar:

  • dor;
  • infecção;
  • constipação;
  • refluxo;
  • sono;
  • saúde oral;
  • estado nutricional;
  • deficiência de ferro ou vitamina D;
  • crises epilépticas;
  • efeitos de medicamentos;
  • luxação de quadril;
  • escoliose;
  • pressão em órteses;
  • sobrecarga terapêutica.

Uma causa clínica tratável é geralmente mais relevante do que medir citocinas experimentais.

10.3. Exercício continua sendo importante

Atividade física e exercício bem dosados são relevantes para:

  • condicionamento cardiorrespiratório;
  • massa e função muscular;
  • metabolismo da glicose;
  • saúde óssea;
  • circulação;
  • sono;
  • participação;
  • prevenção de doenças secundárias.

No entanto, a hipótese inflamatória não justifica submeter a criança a volumes excessivos de terapia. Sobrecarga, dor, privação de sono e recuperação inadequada podem prejudicar desempenho e adesão.

A orientação prática é usar:

  • desafio suficiente para aprendizagem;
  • intensidade individualizada;
  • intervalos de recuperação;
  • monitoramento de dor e fadiga;
  • objetivos funcionais;
  • participação ativa da criança.
10.4. Não há “protocolo anti-inflamatório” estabelecido para PC

Até o momento, não existe recomendação clínica consolidada para tratar pessoas com PC rotineiramente com:

  • anti-inflamatórios;
  • corticoides;
  • imunomoduladores;
  • suplementos antioxidantes;
  • dietas restritivas;
  • probióticos;
  • altas doses de vitaminas;
  • terapias celulares;

com a finalidade genérica de reduzir “a inflamação da paralisia cerebral”.

Estudos em animais mostram que intervenções dirigidas à micróglia podem reduzir neuroinflamação e melhorar resultados motores. Um exemplo é a administração de N-acetilcisteína ligada a dendrímeros em coelhos com modelo experimental de PC. Mas isso é pesquisa pré-clínica e não equivale a recomendar N-acetilcisteína comum para crianças com PC.

Da mesma forma, estudos com resveratrol, células de cordão umbilical e outros agentes são predominantemente animais, exploratórios ou ainda insuficientes para uso rotineiro.

O que pode ser medido atualmente?

Em contexto de pesquisa, são utilizados:

  • IL-1β;
  • IL-6;
  • IL-8/CXCL8;
  • IL-10;
  • IL-17;
  • TNF;
  • proteína C-reativa;
  • quimiocinas;
  • fatores de crescimento;
  • marcadores de ativação glial;
  • marcadores de estresse oxidativo;
  • perfis proteômicos;
  • metabolômica;
  • microbioma;
  • PET com ligantes associados à ativação microglial.

Nenhum desses marcadores isoladamente está validado para:

  • confirmar PC;
  • definir prognóstico funcional individual;
  • selecionar fisioterapia;
  • indicar intensidade terapêutica;
  • monitorar resposta à reabilitação;
  • prescrever uma dieta ou suplemento.

Um pequeno estudo, por exemplo, avaliou apenas 18 crianças com PC espástica e comparou os resultados com modelos animais, sugerindo envolvimento de TNAP, IL-6, IL-17, IL-10 e NF-κB. É interessante mecanisticamente, mas ainda insuficiente para aplicação clínica direta.

Os artigos mais importantes para entender a origem dessa discussão

Inflamação perinatal e risco de PC

Bashiri et al., 2006 — Cerebral palsy and fetal inflammatory response syndrome: a review.
Relaciona inflamação intra-amniótica, resposta inflamatória fetal, lesão da substância branca e risco de PC.
Hagberg et al., 2005 — Role of cytokines in preterm labour and brain injury.
Discute citocinas, prematuridade, ativação de receptores imunes e sensibilização do cérebro a lesões.
Shatrov et al., 2010 — Chorioamnionitis and cerebral palsy: a meta-analysis.
Encontrou associação entre corioamnionite clínica ou histológica e PC, embora associação epidemiológica não prove causalidade em cada caso.
Dammann e O’Shea, 2008 — Cytokines and perinatal brain damage.
Revisão dos mecanismos pelos quais citocinas podem participar da lesão cerebral perinatal.

Marcadores inflamatórios em crianças com PC

Magalhães et al., 2019 — Inflammatory biomarkers in children with cerebral palsy: a systematic review.
Principal revisão sistemática sobre biomarcadores periféricos; encontrou sinais frequentes envolvendo IL-1β, IL-6, TNF e IL-8, mas com grande heterogeneidade.
Zareen et al., 2021 — Cytokine dysregulation in children with cerebral palsy.
Mostrou que a questão pode envolver alteração da capacidade de resposta imune, e não apenas aumento basal das citocinas.
Paton et al., 2022 — Persistent Inflammation in Cerebral Palsy: Pathogenic Mediator or Comorbidity? A Scoping Review.
É provavelmente a principal origem recente da afirmação de que a inflamação pode persistir por anos ou décadas. É uma revisão de escopo, útil para mapear evidências, mas não comprova que todos os indivíduos tenham inflamação persistente nem que essa inflamação cause diretamente suas limitações.

Neuroinflamação e modelos experimentais

Kannan et al., 2012 — Dendrimer-based postnatal therapy for neuroinflammation and cerebral palsy in a rabbit model.
Mostrou ativação de micróglia e astrócitos e resposta a uma terapia experimental dirigida. É evidência pré-clínica.
Wang et al., 2022 — TNAP: a potential cytokine in cerebral inflammation in spastic cerebral palsy.
Pequeno estudo humano associado a modelo de hipóxia-isquemia em ratos, sugerindo comunicação entre alterações periféricas e cerebrais.

Músculo

Handsfield et al., 2022 — Muscle architecture, growth, and biological remodelling in cerebral palsy.
Revisão importante sobre crescimento muscular, fibrose, matriz extracelular e expressão pró-inflamatória no músculo da PC.

Intestino e microbiota

Huang et al., 2019 — Distinct gut microbiota composition and functional category in children with cerebral palsy and epilepsy.
Peng et al., 2023 — The role of the gut-microbiome-brain axis in metabolic remodeling amongst children with cerebral palsy and epilepsy.
Estudo pequeno, observacional e exploratório; não demonstra que a microbiota cause PC ou que seu tratamento melhore função motora.

Conclusão clínica

A inflamação na PC deve ser entendida como um conjunto de processos interligados, e não como uma inflamação única.

A evidência mais sólida sustenta que:

  • inflamação materno-fetal e neonatal pode participar da origem de algumas lesões cerebrais;
  • a neuroinflamação pode amplificar o dano inicial e interferir na maturação da substância branca;
  • algumas pessoas com PC apresentam alterações inflamatórias detectáveis anos depois;
  • músculos com espasticidade e contraturas apresentam remodelamento, fibrose e alterações de vias inflamatórias;
  • microbiota intestinal e metabolismo podem estar alterados, especialmente em crianças com epilepsia, mas a causalidade ainda não está estabelecida.

A evidência não sustenta, por enquanto, que:

  • toda pessoa com PC tenha inflamação sistêmica crônica;
  • a inflamação seja proporcional ao GMFCS;
  • um marcador sanguíneo explique espasticidade ou desempenho motor;
  • dieta, suplemento, probiótico ou anti-inflamatório trate genericamente a PC;
  • reduzir uma citocina isolada gere necessariamente ganho funcional.

Na prática, essa discussão amplia o olhar para além da lesão cerebral: obriga a equipe a considerar saúde muscular, sono, dor, nutrição, intestino, infecções, condicionamento, recuperação e envelhecimento. Mas ainda não muda a base da reabilitação, que continua sendo intervenção ativa, específica, funcional, progressiva, individualizada e acompanhada do tratamento cuidadoso das comorbidades.

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